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O Barroco

O objetivo já não era tocar o céu, unir o terreno e o divino através das imponentes, mas também austeras catedrais góticas. Nem se pretendia prosseguir com o equilíbrio, a sobriedade e a racionalidade da arquitetura renascentista. A Roma dos Papas tinha outra receita para a majestade que a todo custo queria exibir. O barroco surgia como uma resposta ao cisma, vincando a diferença entre a igreja romana e o emergente protestantismo, materializando a sua imponência e omnipresença na vida dos homens. Mais do que agradar a Deus, pretendia-se impressionar os fiéis, inebriar os seus sentidos, apostando-se na exuberância, na teatralidade dos novos edificados religiosos e na produção artística patrocinada com intuitos ideológicos, quase propagandísticos, também como forma de devolver a uma acossada igreja, a dignidade e o esplendor perdidos.

Porque o clima político e religioso de Roma não era muito diferente do que se registava em outros pontos da Europa, a cultura barroca não só se alastrou às várias artes, como também se difundiu pelo velho continente e além Atlântico. Fizeram-se, contudo, interpretações e adaptações do estilo, variações sobre o original, por influência das culturas locais e nacionais, nomeadamente comedindo-se algum do aparato visual tipicamente italiano, com o seu excesso ornamental e gosto pelo movimento ondulado dos edifícios.

A Pompeia, a segunda esposa do Divus Julius, associava-se o provérbio “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta". E o barroco focava-se nisso, no parecer, anseio que não era um exclusivo das elites eclesiásticas. A doutrina absolutista disseminava-se pelas casas reais europeias, tendo no Rei-Sol, Luís XIV, o seu melhor exemplo. O espetáculo real exigia cenários que brilhassem aos olhos daqueles sobre quem se exercia o poder. O rei francês, que se julgava com mandato divino, foi o pináculo da ostentação e da estravagância que faziam escola entre uma aristocracia que, ainda que muitas vezes falida e ultrapassada pela alta burguesia que a financiava e com ela partilhava o desprezo pela simplicidade, aspirava distinguir-se dos demais, ostentar igualmente poder e prestígio, recorrendo ao luxo e ao exibicionismo.

Assim, como se multiplicaram por toda a Europa as grandes construções de carácter religioso, com um espírito vincadamente barroco, como as igrejas catedrais, paroquiais e conventuais, cresceu também o número de grandes palácios e residências de campo num mesmo estilo arquitetónicos, em que os edifícios eram concebidos como se de esculturas se tratassem. As políticas económicas mercantilistas implementadas com grande sucesso em França, permitiram a acumulação e concentração de enormes volumes de capital que por sua vez permitiram a realização de grandes projetos arquitetónicos. Mas se as construções eclesiásticas eram edificadas, por norma, junto ou integradas nos núcleos urbanos onde viviam os fiéis, concebendo-se praças onde estes se podiam concentrar, estando assim mais perto do público alvo que se pretendia impressionar e dominar, as construções civis podiam ser construídas longe dos aglomerados populacionais. Afinal, longe da realidade do homem comum, porque “Sempre pelo povo, mas nunca com o povo!”. Existia assim espaço circundante disponível para a construção de grandes jardins, geometricamente pensados e executados, pontuados com fontes, espelhos de água e elementos escultóricos que tinham de resto uma importância fundamental na expressão barroca. No fundo, o jardim como imagem idealizada do “paraíso”, que servia de cenário e realçava a beleza dos palácios e os distanciava do mundo imperfeito lá fora, marcado pela miséria.

À fachada dos palácios, composta por vários pisos, regra mantida da arquitetura renascentista, era dada especial atenção, agrupando-se ao centro diversos elementos arquitetónicos, como colunas ou pilastras, conferindo verticalidade à construção sem lhe retirar fluidez nas linhas. À nudez e simplicidade das linhas dos edifícios da renascença, que procuravam a simbiose com a luz natural que permitisse realça-las, a arquitetura barroca contrapunha um jogo de luz e sombras, obtido pela aplicação de saliências, reentrâncias, de numerosos e caprichosos elementos ornamentais esculpidos e de molduras aplicadas nas janelas ou sobre as paredes e as superfícies lisas, contribuindo para alcançar um efeito exuberante e distinto.  

O barroco francês, também por uma questão de diferença temperamental, distanciar-se-ia do italiano, apontando-lhe algum mau gosto, optando por fazer uma síntese deste com as tradições clássicas. O termo barroco seria inclusive utilizado pela primeira vez em França, em termos depreciativos, tal como acontecera em Itália, com o gótico. Será o modelo mais replicado nos restantes países da Europa, rendidos ao exemplo máximo da escola francesa que representa o imponente e megalómano palácio real de Versalhes, para onde se mudou a corte e o governo, com os seus jardins “à francesa”, com os quais o palácio se integrava harmoniosamente, radicalmente opostos à exiguidade italiana, neste aspeto. Também ao contrário do movimento ondulantes das estruturas italianas, Versalhes destacava-se pela simetria e harmonia do seu conjunto. Interiormente encontrava-se ricamente ornamentado com pinturas alegóricas, aplicações em ouro, decorado com tapetes e mobiliário dos melhores artesãos daquele tempo.

Já os países teutónicos, por seu turno, com igual sucesso que se replicará a leste, farão a síntese entre os barrocos italiano e o mais classicista francês. Finda a violenta Guerra do Trinta Anos, num retalhado território feito de inúmeras cortes reais e ducados, fervilham as encomendas a arquitetos e artesãos que desenvolvem um estilo que já adivinhava o rococó, marcado pela exuberância decorativa, com especial destaque para os interiores. As escadarias simétricas, os halls e os salões do Palácio do Belvedere espelham bem esta tendência, com as suas paredes profusamente ilustradas com pinturas alegóricas ou que criavam efeitos abstratos de infinito e profundidade e o recurso a estátuas integradas nos próprios pilares do edifício, como que se substituindo a estes na sua função estrutural e arquitetónica de sustentação das coberturas. Exteriormente o palácio do Príncipe Eugénio de Saboia destacava-se ainda pelos seus sete volumes, sendo o central o mais elevado, projetado para a frente, exibindo todo o exterior detalhes decorativos extravagantes e até grotescos.

Fase decadente do renascimento ou evolução natural deste, período fervilhante do ponto de vista económico, mas também conturbado, feito de guerras e perseguições, fome e miséria, as confrontações sociais, políticas e religiosas gritantes da época refletiram-se no barroco, esse período onde a pintura, a escultura e a arquitetura se fundiram de forma arrojada e provocadora, num exercício no sentido de exaltação de contrastes, levado ao extremo pelos arquitetos do século XVII, que tão bem souberam materializar o espírito duma época em que a emoção triunfou sobre a razão.

 

Bibliografia

CONTI, F. (1978). Como Reconhecer a Arte Barroca. Lisboa: Edições 70.

GOMBRICH, E. H. (2005). A História da Arte. Lisboa: Público.

 

 

Renascimento

 O filósofo italiano Marsílio Ficino (1433-1499) classificou-o como “século de ouro”, quando as artes liberais, a gramática, a pintura, a música, a escultura e a arquitetura saíram da sombra do obscurantismo religioso, se libertaram duma igreja que reservava para si, quase exclusivamente, toda produção cultural e intelectual. O século XV fica marcado pelos novos sistemas de pensamento humanistas, pela ascensão das cidades como centros de criatividade e prosperidade, pela emancipação do individuo como criador e autor, papel até então reservado ao Altíssimo, deixando de ser mero executante da vontade e genialidade divinas. Não se passa a negar Deus, mas a realizá-lo através da razão.

É o século da redescoberta entusiástica das virtudes artísticas e monumentais do período greco-romano, assistindo-se do ponto de vista artístico e arquitetónico a uma rutura com o estilo vigente, o gótico, que passa a ser considerado por muitos contemporâneos renascentistas como uma forma de arte inferior. Não será difícil imaginar que as grandes construções góticas, grandes catedrais que, até então, tinham dominado de forma absoluta e austera a paisagem urbana, verdadeiras obras primas do engenho humano cujo valor mais tarde viria novamente a ser reconhecido, com o passar dos anos perdessem a beleza original e a luminosidade conferida pela pedra utilizada na sua construção. Esta haveria de se transformar com o negrume dos fungos e da humidade que gradualmente nela se entranhavam, em algo de fantasmagórico, sinistro e opressivo, esteticamente desinteressante.

É, pois, para o período clássico que se viram autores, intelectuais e artistas renascentistas, nomeadamente os arquitetos, agora eruditos que ganham um novo estatuto e notoriedade, buscando naqueles tempos remotos inspiração e conhecimento. Sobram daqueles períodos áureos apenas ruínas, “velhas paredes, mas novas para os espíritos modernos[1] onde são possíveis de ainda se vislumbrar construções de uma beleza e esplendor que se pretende transportar para as grandes cidades Estado italianas, que viam como prestigiante a associação à grandiosidade de Roma. Destaca-se neste empreendimento Filippo Brunelleschi (1377-1446) que estudará sistematicamente elementos decorativos da arquitetura romana, frontões, pilastras, cornijas, colunas de capitel coríntio, fazendo sobre eles uma reflexão matemática e introduzindo-os nas suas obras.

Mas será Leon Battista Alberti (1404-1472) a ir mais longe na integração e conjugação de distintos elementos ornamentais clássicos. Os arcos triunfais ou os arcos dispostos em arcadas sustentados sobre colunas, os domos redondos, os pórticos, e a própria estrutura dos edifícios, onde predominam as linhas horizontais, convivem harmoniosamente entre si, obedecendo a determinada ordem e medida. A forma de pensar o edifício é reformulada, importando agora a sua implantação e funcionalidade no contexto da própria cidade. A renovação urbana passava a ser pensada, ordenada e racionalizada, com os espaços públicos e privados a dialogar e a interagir entre si. Passa a existir uma preocupação com a solidez e segurança dos edifícios, aplicando-se formas geométricas básicas nas suas plantas, erguendo-se em estrita obediência à simetria, à proporcionalidade e à perspetiva, princípios estudados também por Brunelleschi.

Alberti não rompe totalmente com as tradições gótica e tardo-românica, nem recria ou segue escrupulosamente a tradição clássica, fazendo antes, de todas elas, uma síntese, mesclando o velho com o antigo, obtendo o moderno, sempre com recurso a critérios racionais porque só assim seria possível alcançar a beleza ideal. Longe dos modelos medievais desorganizados, o edifício passava a ser como uma obra de arte acabada, pensada e concebida para não ser posteriormente desvirtuada.

O tratado de Alberti sobre arquitetura, De Re Aedificatoria, onde enuncia normas gerais para as construções, terá ampla aceitação entre os demais arquitetos seus contemporâneos. Assentavam sobre três pilares fundamentais que afastavam definitivamente a arquitetura do amadorismo: o da necessidade, onde eram abordadas a forma e os materiais; da comodidade, sobre a adaptação do edifício às suas funções e até estrato social dos proprietários; o do prazer, relacionado com a decoração, ornamentação e a comodidade dos diversos espaços.

Com Alberti inaugura-se época do belo e do sensível, da arquitetura como disciplina científica, sumativa de várias outras, precedendo Da Vinci como verdadeiro “homem universal”.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

Delumeau, J. (1983). A Civilização do Renascimento (Vol. I). (M. Ruas, Trad.) Lisboa: Editorial Estampa.

Gombrich, E. H. (2005). A História da Arte. Ed. Público.

 



[1] Citação atribuída a Giovanni Boccaccio (1313-1375).

Estrutura Social no Portugal Moderno

 Durante os séculos XVI e XVII persiste a estrutura social medieval, assente nas três ordens, cada uma com um propósito na organização da sociedade. Contudo, a crescente complexidade desta e do aparelho burocrático e administrativo que a suporta, o dinamismo económico impulsionado pela expansão ultramarina e o comércio transoceânico, e no contexto da cultura renascentista, em cada uma das três ordens observa-se uma fragmentação em diversos estratos e categorias, dentro de uma mesma lógica hierarquizada.

No que concerne à nobreza, esta alarga-se a novos atores sociais, encontrando-se desde logo dividida e de certa forma polarizada, entre o sangue e o mérito. De um lado, mais conservador, os fidalgos, aqueles que eram bem-nascidos, nobres por nascimento, herdeiros dos valores tradicionais da honra, da bravura, da cavalaria, com uma história ancestral marcada pelos feitos militares, pela lealdade régia, pela conquista e propriedade da terra. Do outro, os mais empreendedores de origem plebeia, que se distinguem por feitos não necessariamente de natureza militar, antes pelo seu trabalho, pela importância da sua atividade profissional ou comercial, por força da riqueza material acumulada, que passava a constituir uma forma privilegiada de aquisição da almejada nobreza que, ainda assim, seria sempre menos prestigiante que a de linhagem.

Se no passado o poder residia nas armas e na coragem física, transferia-se agora também para o dinheiro e ainda para as letras, sendo as universidades, portas de acesso a carreiras que automaticamente conferiam o estatuto de nobreza (Oliveira, 1984, pp. 35) contribuindo para a preservação do status quo das elites, dos grupos privilegiados.

As funções mais importantes, cargos nobilitantes, nomeadamente os relacionados com o aparelho político e administrativo da Coroa, eram cobiçadas e detidas pela nobreza que marcava presença na governação das colonias, nas magistraturas e nas vereações, estas, posições que foram ganhando crescente prestígio porque nos concelhos, que gradualmente conquistavam espaço ao senhorialismo, eram delegados mais poderes e autonomia. Cargos elegíveis, mas circunscritos apenas aos mais nobres e principais de cada terra, por vezes parentes entre si, permitindo aos seus detentores não só a obtenção de privilégios diversos, como também a criação de redes de contactos, potenciando a existência de autênticas oligarquias e o enobrecimento das aristocracias locais que com a fidalguia, os mercadores e as casas senhoriais, mantinham relações de clientelismo, financeira e politicamente profícuas.

O dinheiro que afluía ao reino, numa abundância como nunca antes vista, pelos generosos proventos do comércio do ouro de Mina, das especiarias do oriente e dos escravos, era aplicado na aquisição de terras, com a finalidade de constituir morgados, em palácios, em igrejas, capelas e conventos, precisamente naquilo que permitia ostentar luxo e riqueza e também cair na boa graça divina. Observou-se uma emancipação dos mais empreendedores e ambiciosos do Terceiro Estado, que almejavam ascender socialmente tendo em comum com a fidalguia estabelecida, a ostentação, o aparato, por vezes exagerado, e a exteriorização de uma série de códigos de conduta e comportamentos relacionados com o ser nobre. Mais que ser, o parecer, no dia-a-dia, em privado, mas também em público, em momentos especiais e ritualizantes como eram as procissões. Só a certos estratos era permitido o uso de determinados tecidos, cores e roupas e existiam os títulos nobiliárquicos, o tratamento por “Dom”, “dona”, o “Vossa mercê” ou o “Vossa Excelência” que ainda perdura atualmente como forma reverente e institucional de tratamento. Ainda outros sinais exteriores de riqueza, como a posse de cavalos, criados e escravos, pormenores distintivos de um grupo que buscava também alcançar as boas graças do poder régio, mercês, tenças e comendas, o desejo último de pertencer à nobreza cortesã, essa bem mais cristalizada, praticamente impermeável à miscigenação que se observava na baixa e média nobreza.

A ascensão social não se cingiria à meritocracia, alcançando-se por vezes por via do matrimónio, cabendo neste aspeto ao rei a sua validação, forma de garantir o equilíbrio de poderes e no interesse da manutenção e reforço do próprio poder régio.

Bibliografia

OLIVEIRA, António de – Poder e sociedade nos séculos XVI e XVII. In MEDINA, João, dir. – História de Portugal. Madrid: S.A.E.P.A, Clube Internacional do Livro, 1984. ISBN-84-408-0112-2 (Vol. VII). Pp. 11 a 47.

MAGALHÃES, Joaquim Romero – No Alvorecer da Modernidade – A Sociedade. In MATTOSO, José, dir. - História de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, 1997. ISBN 972-33-1084-8 (Vol. III). Pp. 469 a 509.

Dom Sebastião

Vinte e quatro anos antes daquele que seria o maior desastre militar de sempre da história de Portugal, no dia 20 de janeiro de 1554, D. Joana de Áustria tomava conhecimento do falecimento do seu jovem esposo, o príncipe João Manuel, ocorrido semanas antes. Nesse mesmo dia, dava à luz Sebastião, o Desejado. Sem dever matrimonial que a prendesse ao reino, não vendo na maternidade obrigação em nele permanecer, a parturiente retornaria a Espanha quatro meses mais tarde, deixando órfão o herdeiro do trono português, entregue aos cuidados dos avós, a também espanhola D. Catarina e o rei D. João III. Confiando a educação do neto à Companhia de Jesus, decisiva na formação do seu caracter e convicções, D. Catarina assume a regência do reino em 1557, com a morte do “Piedoso” em 1557. O quadro familiar do futuro rei e as questões relacionadas com a consanguinidade, são elementos incontornáveis que ajudam a explicar também o quadro mental e psicológico do futuro rei misógino, neuropata, presunçoso, doido, pateta ou degenerado, entre outros epítetos com que foi apelidado monarca nada consensual. Há quem defenda que não teria estado o povo português à altura da galhardia do seu Rei ou sublinhe o contributo do Sebastianismo para a consolidação da união e entidade nacionais. Não será despiciendo afirmar que a falta de contacto com sentimentos e laços familiares próximos, a ausência do afeto e das referências paternais, terão influído na formação da sua personalidade, onde se destacava uma intransigência patológica. Poderá disto ser sintomática a necessidade que o monarca teria de percorrer o reino e tomar contacto com aquilo que era a realidade da vida do povo, estabelecendo relações de proximidade incomuns, assim como a devoção pelos seus antepassados, o culto e admiração de um passado heroico e glorioso que também sonhava alcançar. 

Apesar de certa franja da nobreza portuguesa se queixasse da preponderância negativa dos jesuítas, que manteriam o monarca manipulado, quase refém e sob a sua exclusiva esfera de influência, aquele faz-se rodear de nobres cavaleiros que, tal como ele, procuram alcançar a glória pela força da espada, representantes de uma nobreza mais conservadora, frustrada pela falta de protagonismo, causas e campos de batalha onde pudesse demonstrar a sua honra e o seu valor, sentindo-se também relegada para segundo plano face à ascensão da importância da artilharia no campo militar. Essa mesma nobreza que não se conformava com a política do anterior Rei, de abandono do expansionismo terrestre no Norte de África, com a retirada de várias praças, mantendo-se apenas aquelas que se mostravam estratégica e estritamente essenciais para assegurar a segurança da navegação e expansão ultramarina e comercial, a verdadeira aposta do Reino e opção acertada face várias contendas territoriais e aos múltiplos problemas causados com o corso. O reino não possuía recursos e meios, essencialmente humanos, capazes de manter a integridade de todas as fronteiras do império também sob a ameaça dos Otomanos, cuja expansão havia sido travada no Mediterrâneo, na decisiva Batalha de Lepanto, tendo a intervenção de Espanha sido decisiva. D. Sebastião, caracterizado por uma obsessão bélica e um espírito de cruzada em certa medida anacrónico, mostrava-se ansioso por também fazer a sua parte no combate ao inimigo turco e na expansão da cristandade. No plano internacional, a Europa cristã fragmentara-se com a Reforma, sendo maioritariamente protestante a norte e católica a sul, perdendo o Papa de Roma o poder e protagonismo de outrora. Os reinos peninsulares mantinham-se na mesma causa religiosa, mostrando-se defensores acérrimos da igreja de Roma, laços comuns suportados também pela língua e interesses estratégicos que poderiam servir de pretexto e facilitar uma almejada união política defendida internamente por vários adeptos da causa unionista, seguindo, no entanto, D. Sebastião uma política de independência face a Castela, cuja influência desde há muito pairava sobre a governação do reino vizinho, nomeadamente na questão matrimonial do rei português, que permanecerá como uma das questões centrais da política externa portuguesa. Até que ponto os precedentes casamentos reais, por via de sucessivas nubentes espanholas com monarcas portugueses, não teriam constituído Cavalos de Troia para alcançar a conquista pacífica do reino de Portugal por parte do lado espanhol? Filipe II terá sido movido por algum maquiavelismo no relacionamento que manteve com o seu impulsivo sobrinho, na questão da intervenção militar no Norte de África. Quando tudo apontava para um quase garantido desastre, o espanhol não acompanhou, pelo menos com a necessária convicção, o coro de proeminentes vozes que desaconselhavam semelhante aventura, tendo inclusive disponibilizado tropas, embora a soldo do português, para a ambiciosa jornada, ao mesmo tempo que vendia armas aos mouros do Magrebe. Mesmo em pleno campo de batalha, a ordem de investida por parte das forças sob o comando de D. Sebastião, compostas pela nata guerreira nacional e inúmeros mercenários, terá sido precipitada a conselho de um alto responsável militar espanhol, numa espécie de agora ou nunca, quando a prudência aconselhava que as tropas aguardassem em posições defensivas. A grande jornada de D. Sebastião pelo Norte de África, que culminaria com a sua morte na “Batalha dos Três Reis”, arrastando um reino que investira tudo o que tinha e não tinha numa quimera, para uma profunda crise económica e sucessória, culminado com a sua perda de independência, para o domínio Filipino, durante 60 anos.

Bibliografia

CRUZ, Maria Augusta Lima – “D. Sebastião”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, pp. 183-194.

MEDINA, João – “O Sebastianismo – Exame Crítico de um Mito Português” – in “História de Portugal” –- Lisboa: Clube Internacional do Livro, 1996 - Vol. VI - pp. 277-296.

RAMOS, Rui, coord.; SOUSA, Bernardo Vasconcelos e; MONTEIRO, Nuno Gonçalo – “História de Portugal”, Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009 (livro

A Estrutura Económica do Portugal Moderno

O período compreendido entre os séculos XVI e XVIII corresponde genericamente a uma época áurea da história de Portugal, durante qual o país ascendeu à condição de potência imperial ultramarina, obtendo um protagonismo à escala global que jamais se repetiria.

Não obstante o impulso verificado no final do século XV na produção industrial, internamente o país possuía um tecido económico essencialmente agrário, setor que ocupava a maior parte duma população apostada apenas na autossubsistência. No virar do século, o modelo económico do país, que iria perdurar pelas próximas três centúrias, já se baseava no comércio de especiarias, materiais amoedáveis e de escravos, permitindo a canalização de um fluxo de capitais massivo para o reino que variado património monumental então edificado, é atualmente disso testemunha, um pouco por todo o país. Iriam ocorrer mutações no modelo económico mercantil, numa primeira fase expansiva do império e de monopólio das principais rotas comerciais, depois com a concorrência direta de outras nações na exploração dos filões de recursos e matérias primas de África, Ásia e Brasil, até, finalmente, á desagregação do império.

No início do século XVI a produção manufatureira ocorria fundamentalmente em contexto familiar, um trabalho doméstico que complementava e não substituía o trabalho rural, satisfazendo encomendas de agentes mercantis sedeados nas maiores cidades. Os produtos assim produzidos, essencialmente relacionados com a fiação e tecelagem de lanifícios, seguiam depois para oficinas em ambiente urbano, passando para a próxima etapa duma linha de produção que se estendia do campo à cidade. Nas oficinas os produtos eram alvo de intervenções que exigiam técnicas mais complexas, nomeadamente a tinturaria e a estampagem. A produção de tecidos destinados ao vestuário, tratando-se de produtos de primeira necessidade com forte procura, era uma atividade que se estendia a todo o território onde igualmente marcavam presença outros setores como o metalúrgico, embora mais centralizado, exigindo maiores infraestruturas e matéria prima que era parcialmente importada. Neste aspeto, em termos de dimensão e complexidade logística, destacava-se o complexo industrial da Ribeira das Naus, onde se concentravam múltiplas atividades relacionadas com a construção naval, um setor estratégico diretamente financiado e tutelado pela Coroa.

A partir do final do século XVII começam a ser implementadas políticas protecionistas e de fomento das artes visando equilibrar a balança comercial que vinha acumulando sucessivos déficits. O Estado passava a limitar as importações de produtos de luxo com a promulgação de pragmáticas e a garantir o monopólio de determinados setores estratégicos à iniciativa privada, assumindo as unidades de produção criadas a classificação de real fábrica. Assiste-se então a uma deslocação de capital para os meios rurais, onde se encontra uma mão de obra menos reivindicativa e, de fora, importasse know how, assumindo o Estado o papel de facilitador na contratação desses especialistas através da sua rede de embaixadas, aliciando-os com prémios, despesas de deslocação e alojamento pagas.

A partir do século XVIII o fabrico de produtos transformados é muito influenciado pela procura das populações rurais, centrado principalmente no vestuário, utensílios domésticos, artefactos de metal e instrumentos agrícolas, verificando-se uma propagação de artífices pelas vilas e aldeias e um crescimento das exportações e do consumo nas grandes cidades, como Lisboa, onde se concentra uma população com mais poder de compra, assumindo nas transações os têxteis um lugar de destaque[1]. O Estado reforça o seu papel interventivo e fomentador na economia, apostando na concentração de capital e trabalho de todas as fases de produção que como já vimos atrás, se repartiam em o campo e a cidade. O investimento privado em unidades fabris, que quando concebidas de raiz, ostentavam uma exacerbada monumentalidade que teria os consequentes custos que naturalmente influíam na sua competitividade, era igualmente compensado com isenções fiscais e exclusividade no fabrico. De especial eficácia vão revestir-se diversas medidas Pombalinas, aplicando-se então um plano de fomento estruturado, visando concretamente a substituição de importações, intervindo o Estado na administração de algumas das muitas unidades fabris criadas, apostando-se em técnicas de produção inovadoras e na monitorização da produção, ficando as empresas obrigadas, pelas contrapartidas da exclusividade de produção, a praticarem um limite nos preços. Não obstante, o tecido industrial português era caracterizado e dominado pelas oficinas ou pequenas unidades de produção e só a um ritmo lento vão sendo incorporadas nos processos de fabrico algumas das inovações tecnológicas e a mecanização que já era uma realidade nos países anglo-saxónicos.

Em certa medida a partir do século XV o país virou-se para fora, para o mundo, teve essa capacidade e audácia, mas esqueceu-se de olhar para dentro, para o investimento produtivo e gerador de riqueza, para o desenvolvimento interno de infraestruturas e estruturas de produção que de algum modo pudessem mais tarde precaver e atenuar a perda de receitas ultramarinas. A partir de finais do século XVII, a indústria portuguesa passaria a estar quase exclusivamente refém da limitada procura interna que, pelas suas características (rurais) era pouco exigente constituindo, também, um obstáculo á inovação. É certo que o império fomentara o desenvolvimento da manufatura e de unidades de produção industriais na metrópole, relacionadas com a construção naval, como o cordame, o velame, o armamento e até os biscoitos que serviam de base da alimentação durante as grandes travessias oceânicas. No entanto, a longo prazo, não seriam estas estruturas produtivas capazes de assegurar um modelo de desenvolvimento sustentado, continuando o país, parco em recursos naturais, dependente de importações noutros sectores, nomeadamente na alimentação, calçado e produtos industriais e manufaturados, entre os quais os de luxo que constituíam um autêntico sorvedouro de capitais. O que acontecia com a cortiça, matéria prima de que o país era exportador, ilustrava bem o modelo económico (vicioso) então vigente: a cortiça era vendida a Inglaterra para depois ser recomprada a um custo substancialmente acrescido, sob a forma de rolhas. O único tratamento aplicado às matérias primas que transitavam pelos portos portugueses consistia na aplicação de taxas alfandegárias e aduaneiras, seguindo o seu destino em direção a outras nações, fomentado as respetivas indústrias transformadoras.

Enquanto a Revolução Industrial prosseguia (literalmente) a todo o vapor em Inglaterra e as restantes potências coloniais já se perfilavam para seguir o mesmo caminho de desenvolvimento, Portugal fazia a sua entrada no século  XIX com o seu território devastado em consequência das guerras napoleónicas, economicamente estrangulado com o fim do pacto colonial, com uma deficiente rede de transportes, uma industria de pequena escala e um povo familiarizado com a miséria.

Bibliografia

COSTA, Leonor Freire; LAINS, Pedro; MIRANDA, Susana Munch – História Económica de Portugal, (2ª edição), Lisboa, A Esfera dos Livros, 2012



[1] No princípio do século XIX, 43% dos operários da indústria recenseados estão empregados no setor têxtil (História Económica de Portugal, pp 244).

Os Fundamentos da Restauração

 As más notícias trazidas de Alcácer-Quibir em 1578, tinham colocado no trono do reino de Portugal e Algarves, o anterior regente, Henrique. O Cardeal-Rei estava longe de possuir a imagem heroica do seu sobrinho-neto Sebastião, nem tão pouco era capaz de dar alento a um povo que se sentia órfão e desesperava por melhores notícias vindas de África, de onde a conta gotas, por obra do Casto e mediante elevados resgates, retornavam os sobreviventes da fatídica batalha. No ocaso da sua vida, ainda houve quem intercedesse junto do Papa para que, excecionalmente, este libertasse o sexagenário soberano dos seus votos e pudesse assim casar e deixar descendência. A recusa papal veio a calhar a Madrid, e a sua morte, mais que anunciada[i], irá provocar uma crise na sucessão, perfilando-se três pretendentes ao cobiçado trono deserto. O Conselho de Governadores do Reino de Portugal decidiria a complexa questão, escolhendo Filipe II “O Prudente”, fervoroso defensor de Roma, o primeiro Filipe de Portugal, já há um quarto de século Rei de Espanha, que só com recurso à força das armas executaria a sentença, pondo fim ao reinado efémero de António, Prior do Crato, um veterano da Batalha dos Três Reis[ii]. Exilado o usurpador, conquistada a Coroa portuguesa pelo espanhol, manteve, como era expectável, a capital dos reinos[iii] em Madrid, concedendo à nova aquisição uma autonomia considerável[iv], ficando a decisão sobre assuntos nacionais e a administração do Império ultramarino a cargo de portugueses, embora sob a supervisão de Castela. O país beneficiou da estabilidade proporcionada por uma poderosa mão protetora que se estendia às colónias, até então constantemente saqueadas por holandeses e franceses. Fizeram-se obras públicas, uma em particular de elevado valor não só económico, mas também simbólico, a que permitiu a navegabilidade do Tejo entre os dois reinos e, um pouco por todo o lado, multiplicavam-se os palácios, provas vivas da prosperidade que se vivia sob domínio filipino. Quando veio a Lisboa, Filipe II foi aclamado pelo povo, reverenciado pela nobreza e adulado pelo clero que pareciam abdicar de quaisquer aspirações independentistas. Muito provavelmente, assim se tivesse mantido o modelo de governação que caracterizou os dois primeiros reinados filipinos e Portugal jamais voltaria a ser uma nação independente até porque grande parte do orgulho e bravura nacionais, da fina flor da nobreza mais enérgica que eventualmente poderia revoltar-se a tempo contra a ingerência espanhola, tinha perecido na lendária batalha que arruinara o país. O reinado deste Filipe, “O Piedoso”, foi caracterizado pela forma agressiva como geria os assuntos da política internacional, envolvido que estava em conflitos militares com as províncias rebeldes holandesas e com a herege Inglaterra, acabando por se envolver também na Guerra dos 30 Anos. Esta conflitualidade múltipla e em várias frentes terá como efeito colateral a mudança de paradigma no relacionamento com Portugal.

Durante o reinado de Filipe III (IV de Espanha) “O Grande”, o ministro reformista falhado Olivares chega a propor a unificação total de Espanha, numa altura em que a nobreza portuguesa começava a demostrar descontentamento pela ascensão de fidalgos espanhóis a lugares chave na administração. Também o clero português, por via dos jesuítas, estava descontente com benesses concedidas aos judeus e com as precárias condições de vida de um povo escravizado e subjugado, cada vez mais familiarizado com a miséria e a mendicidade. A pesada política tributária que agora Espanha infligia a Portugal traduzia-se numa usurpação massiva de capital com destino aos cofres exauridos das Finanças de Madrid, necessário para alimentar a máquina de guerra. Para alguns a extorsão era vista como uma provocação, visando despertar uma qualquer revolta que seria o pretexto para, pela força, transformar o reino numa mera província. Começam então as atenções e esperanças a virar-se para o herdeiro natural do trono português, o duque de Bragança, um parente afastado dos últimos reis portugueses que contudo parecia mais interessado em compor música, estando demasiadamente comprometido com Espanha para patrocinar esse primeiro ensaio de revolta de 1637, urdido em Évora pelos jesuítas, com a bênção de Richelieu, mas para todos os efeitos, da autoria do inimputável Manuelinho, estratagema para que a revolta, fracassada, mais fácil fosse para todos dela lavarem as mãos. Seria preciso algo mais para retirar o submisso D. João do conforto do seu palácio em Vila Viçosa e arriscar o prestigio e a fortuna que gozava. Tão vastos eram os seus domínios (que fará questão de posteriormente os separar da Coroa) que era tratado sempre como se fosse monarca quando se deslocava a Lisboa. Diz-se que foi a sua esposa, que preferia morrer rainha a viver duquesa, a despertar no futuro rei a dose de audácia necessária para dar a cara pela insurreição que quatro nobres de linhagem[v] planearam, à qual se juntaram outros 36 fidalgos que, por serem segundos filhos, quais Manuelinhos, em caso de fracasso da empresa, de traição mais facilmente seriam ilibadas as suas casas. Com o apoio dos jesuítas e do poderoso aliado francês, que não tinha outro interesse que não fosse acrescentar mais um inimigo à lista de inimigos de Madrid, o golpe palaciano tinha, no entanto, tudo para dar certo. No dia 1 de dezembro de 1640, bastaria um tiro e uma vítima, o odiado secretário de Estado Vasconcelos, para terminar um período de 60 anos de domínio espanhol, iniciando-se a quarta dinastia, restaurando-se a independência de um país então social e economicamente moribundo. Apesar da rápida adesão dos territórios à Restauração, o novo rei não foi consensual entre a fidalguia e a transição de poder foi tema indiferente para parte da plebe que ainda suspirava por Dom Sebastião. Insatisfeita com as escolhas para o governo, parte da nobreza desertou para Castela e os restantes incrédulos, que contra o duque feito rei conspiraram, inclusive até para o assassinar (1641), foram alvo de perseguição e alguns deles executados. Corria então o sangue que não correra em dezembro.

A resposta de Espanha à ousadia portuguesa não foi imediata, a braços que estava o rei destituído com guerras noutras e mais importantes paragens[vi], permitindo a Portugal ter tempo para, minimamente, se organizar militarmente. Recorrendo ao apoio estrangeiro, o reino recruta mercenários que contribuíram fortemente para incrementar a brutalidade de uma guerra entre vizinhos e importa chefias e peritos militares, estes face à falta de experiência e de conhecimentos técnicos de uma nobreza ainda assim ávida em servir a Coroa e daí obter dividendos. Depois de uma tentativa de paz frustrada, mediada por jesuítas, Portugal viu-se obrigado a sacrificar parte da sua soberania e dos seus interesses, a troco da proteção militar do inimigo do seu amigo. Tais eram as cedências que resultavam do Tratado de 1642 que faziam de cada inglês um rei de Portugal[vii], transformando o país num autêntico protetorado. Um ano antes a assinatura de uma outra convenção de assistência militar também se revelaria desastrosa, tantas seriam as concessões para, afinal, a Holanda incumprir na sua parte. Outros tratados mais ruinosos para a economia e para o orgulho nacional se seguiriam. A subserviência seria uma fatura muito cara a pagar pela sentença dos “sábios” governadores de 1581, ficando para sempre como marca permanente na política externa portuguesa.

Em 1641 começava um longo período de hostilidades intermitentes, com Portugal a saber tirar vantagem das posições defensivas que assumia, ante o fracasso das suas ofensivas, conseguindo com sucesso rechaçar as investidas do inimigo castelhano que também se mostrava mal preparado e desordenado. Com a assinatura do Tratado de paz de Vestefália em 1648, Espanha reduziu o número de frentes de combate e pôde dar outra atenção e prioridade ao conflito ibérico. Contudo a derrota decisiva de Montes Claros e o reacender das hostilidades com França, forçaram os Habsburgos espanhóis a reconhecerem finalmente a independência portuguesa em 1668, pondo um ponto final na mais longa guerra em que Portugal esteve envolvido.

Bibliografia

MARTINS, J.P. Oliveira – História de Portugal, 3ª Edição, Lisboa, Livraria Bertrand, 1882 – disponível no site da Biblioteca Nacional de Portugal (http://purl.pt/217)

RAMOS, Rui, coord.; SOUSA, Bernardo Vasconcelos e; MONTEIRO, Nuno Gonçalo – História de Portugal, A Esfera dos Livros (livro em formato .pdf)

VALLADARES, Rafel – O Novo Regime - 1640-1667, Documento .pdf, acessível na Plataforma de E-Learning da Universidade Aberta.

 

 

 

 

 

 

 

 



[i] Oliveira Martins classifica-o mesmo de “caquético”, in História de Portugal.

[ii] Também assim conhecida em Marrocos a Batalha de Alcácer-Quibir, por nela terem falecido três reis: o rei cristão português e dois sultões.

[iii] Além de Portugal, reinava sobre Castela, Aragão, Valência e as províncias autónomas da Catalunha e da Andaluzia.

[iv] Nos termos do Tratado de Tomar, cidade onde 1581 se reuniram as cortes que consagraram o Rei espanhol, Filipe I de Portugal.

[v] Os condes de Vimioso, Castanheira, Atouguia e o marquês de Ferreira, de acordo com Rafael Valladares.

[vi] Meses antes da insurreição portuguesa, dá-se uma rebelião na Catalunha, encontrando-se ainda a Espanha em guerra com a França e Holanda.

[vii] MARTINS, Oliveira – História de Portugal

O Século das Luzes

Existem acontecimentos na História que são expectáveis, que mais tarde ou mais cedo, acabam inevitavelmente por acontecer. Ficaram na história os povos ibéricos como os primeiros que descobriram, para a Europa, grande parte do restante mundo até então desconhecido, embora tais descobertas fossem precisamente uma inevitabilidade, uma questão de tempo até que um dia, pelos mesmos ou outros protagonistas, ocorressem. Assim como um dia seguramente ocorrerá uma ida a Marte e a descoberta dos seus mistérios ou que, está escrito nas estrelas, acabarão os seres humanos por viajar para lá de Neptuno e se fixar para além do sistema solar conhecido, tornando-se a humanidade então numa civilização galáctica. Menos previsíveis são as revoluções que, inseridas no contexto da constante evolução e mutação das sociedades humanas e do mundo, precipitam e antecipam, para um tempo mais imediato, aquilo que era previsível acontecer naturalmente, com consequências na vida dos homens sempre mais visíveis e disruptivas, que ecoam mais alto no porvir, porque não diluídas no curso normal do tempo.

O século XVIII, o chamado século das luzes, do pensamento iluminista que iluminou o espirito humano, até então mergulhado nas trevas do obscurantismo intelectual e religioso, é um século ele próprio revolucionário, onde ocorrem múltiplas revoluções que abrangem todas áreas da atividade e da existência humana, moldando de forma decisiva o futuro da humanidade e cujas consequências, do ponto de vista económico, político e social, e acima de tudo, dos valores e do pensamento, duma forma de estar e ver o mundo,  perduram até hoje e certamente se perpetuarão nos séculos vindouros como matriz e faróis  orientadores das sociedades ocidentais. Existiram, contudo, no século precedente acontecimentos que antecederam e explicam as mudanças radicais do século da razão, embora os seus efeitos sobre os países continentais tenham sido retardados e não tão impactantes como terão, mais tarde, os resultantes da revolução que inaugurou a idade contemporânea. O período revolucionário inglês, que serviu essencialmente para consumo interno e que culmina em 1688 com a Revolução Gloriosa permitiu à Inglaterra, inventora do liberalismo, obter um grande avanço do ponto de vista económico sobre todas as nações do mundo, tornando obsoleto o velho sistema político, social e económico medieval. Tal como os outros países europeus, o país era então essencialmente agrário, mas o enorme fluxo de capitais procedente da pilhagem do Novo Mundo, anunciava uma mudança de paradigma com a ascensão do capitalismo burguês e o fomento duma atividade económica ostensivamente orientada para o lucro. Tendo Oliver Cromwell (1599-1658) como testa de ferro, a burguesia e uma proativa aristocracia latifundiária suprimiriam as forças de bloqueio, as pretensões da velha nobreza feudal que se revelavam cada vez mais anacrónicas. Derrotados militarmente os realistas, foi instaurada uma república parlamentar, sendo sob o governo daquele lord protector implementadas medidas[1] que definitivamente catapultariam os britânicos para o desenvolvimento duma economia monetária e uma acumulação de capital tal que, investido na inovação e na ciência, tinha um retorno ainda mais lucrativo pelos acrescentos tecnológicos que solucionavam problemas práticos e acrescentavam mais eficiência e valor à industria e ao comércio. Os acontecimentos registados no outro lado da Mancha foram decisivos para que se criassem naquele país as condições ideais para o surgimento de uma série de invenções que tiveram um impacto profundo não só na vida do homem comum como também no tecido produtivo e no próprio meio ambiente sobre o qual se alcançava então um domínio até antes nunca alcançado. Assiste-se primeiramente a uma revolução agrícola, com o aperfeiçoamento de sementes e culturas, uma melhor gestão e rendimento das terras agora também intensivamente utilizadas para a criação de gado em larga escala, alastrando os enclosures (desde o século XIII) que por sua vez irão possibilitar a libertação de mão de obra que acorre aos subúrbios das grandes cidades onde igualmente se fixam unidades fabris. Dá-se o arranque da Revolução Industrial impulsionada pela indústria têxtil e a necessidade de esta satisfazer uma procura crescente, que só com o advento da mecanização[2] se pode alcançar e que acabará por se estender a outras áreas, da metalurgia aos transportes. A vida do homem de setecentos, acelera, verifica-se uma transferência de valor deste para a máquina com a qual se começa a fundir e confundir. É essa máquina, cujos alimentos principais são o ferro e o carvão que providencialmente abundam em Inglaterra, que permite agora milagres como fabricar em minutos o que demorava dias, percorrer em dias o que demorava semanas. A apologia da máquina estende-se à ciência militar que agora vê o soldado como um autómato que, quando despe a farda, transforma-se num mero consumidor que tal como o proletário anseia pelos bens de consumo que compensam pelo esforço, que parecem prometer a felicidade. As cidades também aceleram, ganhando em dimensão, perdendo em condições de vida, ganhando mendigos e desempregados, perdendo em tranquilidade e dignidade.  

Entretanto, no outro lado do Atlântico, à luz dos ideais iluministas, fazia-se uma espécie de ensaio para a mãe de todas as revoluções, com uma Revolução que culminará com a criação dos Estados Unidos (1776) a partir de 13 colónias britânicas que se rebelam contra o poder centralizado em Londres. A emancipação de territórios coloniais constitui ela própria uma inovação, uma Caixa de Pandora que servirá de inspiração para futuras e semelhantes reivindicações noutras geografias.

É em meados do século que os países continentais europeus se dão conta do domínio Inglês e do fosso tecnológico existente. O velho regime resiste em França, mas a falência do Estado monárquico absolutista e a penúria em que vive a generalidade do povo, inspiram um casamento de conveniência entre a burguesia francesa, cansada de financiar os desvarios da corte e da nobreza fútil e decadente, e o povo que afinal aquela tanto teme. Se a revolução inglesa resultou na construção de um modelo democrático de governação experimentado com raízes e tradições medievas, particularmente (apenas) adaptado à realidade de um pais orgulhosamente só[3], a Francesa baseou-se na mera destruição por vezes gratuita de ícones e símbolos de um regime caduco, sobrando barbárie e terror mas também, a final, a imortalização dos ideais da Liberté, Égalité, Fraternité.

Os vários períodos revolucionários do século XVIII consolidaram o sistema de produção capitalista, o estabelecimento de novas relações de trabalho, a eliminação da sociedade das ordens e a definitiva ascensão da burguesia ao poder que atualmente se processa de forma indireta e camuflada pela via partidária, tendo permitido ainda avanços no domínio tecnológico muito significativos que se estenderam do campo da medicina ao militar. São inequívocos os progressos sociais alcançados mantendo-se, no entanto, diferenças gritantes entre classes sociais. Ainda assim, o burguês vive agora na sua villa num condomínio privado, automóvel topo de gama e televisão de 50 polegadas. O seu empregado também tem um teto e automóvel bem mais modestos e um televisor com um ecrã de menor dimensão. Mas não deixam os dois de estacionarem no mesmo centro comercial, se divertirem com a mesma comédia romântica de Hollywood. Talvez seja esta cumplicidade um dos legados mais valiosos do século revolucionário.

Bibliografia

Diversos textos disponibilizados na plataforma online da Universidade Aberta.



[1] A mais significativa das medidas de natureza económica de Cromwell foi o decreto dos Atos de Navegação (1651) que concedia aos navios ingleses o monopólio do transporte de mercadorias na Inglaterra.

[2] A lançadeira volante (fly-shuttle) inventada em 1733 por John Kay foi um marco importante no processo da mecanização.

[3] Veja-se o Brexit, a recente saída do Reino Unido da União Europeia.

A Idade Moderna e o Renascimento

A Idade Moderna caracterizou-se por ser mais que uma rutura com o período histórico imediatamente anterior, batizado, pouco mais de uma década depois da queda da Nova Roma, como Idade Média. Poder-se-á dizer que o homem renascentista, ao menosprezar o período medieval, optou por, ineditamente em qualquer Era histórica, escolher o seu próprio passado, retornando aos valores éticos, artísticos e científicos da antiguidade clássica[1] que tinham permanecido cristalizados no tempo. A culpa desta estagnação civilizacional recairia sobre uma igreja obscurantista que asfixiava o potencial humano, subjugando o homem pelo medo da ira divina, manipulando-o, influenciando-o em todas as fases e momentos da vida.

É reconhecido inestimável mérito à Igreja, nomeadamente aos monges copistas, na preservação de textos clássicos, não se podendo, contudo, dizer o mesmo quanto ao património cultural material alvo de saques e pilhagens com a sua conivência. Não obstante o desprezo a que, principalmente no século XVI, foi votado o período medieval por alguns eruditos humanistas, não se podem descurar as inúmeras realizações técnicas e artísticas que marcaram as dark ages, necessariamente também influenciadas pela herança greco-romana, nem tão pouco foi aquele um período decadente, de estagnação cultural, destacando-se nomes de pensadores como Tomás de Aquino (1227-1274), não se pudendo ainda descurar a fundação de várias universidades atualmente quase milenares e a relevância que teve a renovação cultural operada por Carlos Magno (742-814) ou o impacto nos vários domínios da sociedade provocado pelo chamado Renascimento do século XII.

Na sua apologia e viagem de retorno ao passado clássico, o modernismo colocava o homem no centro do universo, enaltecendo as suas capacidades (nomeadamente a de gerar beleza), dotando-o de novos valores morais como a tolerância, a integridade ou o patriotismo que minava a velha estrutura social, estando agora o homem urbanizado mais subordinado à cidade (Estado) e depois à nação, que a qualquer senhor feudal ou a Deus. A razão foi conquistando gradualmente terreno à fé decadente dos clérigos corruptos e a vida triunfava sobre o fatalismo. A experiência religiosa esvaziava-se de espiritualidade, a missa transformava-se num mero costume social e a igreja era aquele local quase trivial onde as pessoas aproveitavam para se encontrarem e conversar. Passariam, curiosamente, a ser também locais onde iriam ocorrer vários assassinatos dignos de registo, como o dos irmãos Medici, em plena catedral de Florença.

A reforma de Martinho Lutero (1483-1546) foi fundamental na racionalização do cristianismo, na privatização da religião enquanto experiência pessoal e no resgate de valores que pareciam esquecidos numa altura em que os homens cada vez mais se comportavam como se Deus não existisse. Em oposição ao protestantismo, a Igreja de Roma faria a contrarreforma, procurando restaurar a sua autoridade moral, com medidas como a proibição das polémicas vendas de indulgências.

A invenção da imprensa impulsionou a literacia do homem renascentista que agora lê em silêncio, esses momentos introspetivos que reforçam a sua individualidade, passados em novos espaços criados dentro de casa, além de outros dedicados à conversação, tida como um dos maiores prazeres da vida. O homem percebia que podia ter uma palavra a dizer quanto ao seu destino, que existia mais do que um caminho (o de Deus) e a sua voz tornava-se cada vez mais ativa um pouco por todo lado, inclusive nas cortes, revoltando-se galvanizado contra o status quo. A expansão do conhecimento ficava igualmente a dever-se à multiplicação de escolas e universidades criadas fora da alçada da Igreja cada vez mais subordinada a um Estado progressivamente centralizado, administrativamente eficiente e interventivo em áreas como a justiça. Irão cumprir-se as aspirações das monarquias que há muito almejavam uma hegemonia total do poder. Ficará célebre a frase “L’État c’est moi” de Luís XIV (1638-1715) que representa o pináculo do absolutismo.

A sociedade das ordens dava lugar à sociedade das classes, todavia com a mesma configuração trinitária medieva, emergindo entre o terceiro Estado uma burguesia mercantil gradualmente mais próspera, que sonha com a aristocratização e inventa a Banca para financiar não só os exércitos nacionais, as excentricidades da realeza e de toda a sociedade cortesã mas também as grandes empresas como serão os descobrimentos. Portugal será um dos protagonistas principais dessa grande aventura quando os seus desejos de expansão territorial ficam comprometidos pela sua vasta fronteira marítima que todavia se proporá com sucesso ultrapassar, dando a conhecer á Europa novos mundos, novas culturas e novas rotas comerciais que substituirão em importância as do Mediterrâneo em grande parte inconvenientemente controladas pelos sultanatos. As conceções humanistas, o conhecimento geográfico e os avanços em matéria de navegação muito ficarão a dever aos povos exploradores ibéricos.

O frenesim mercantilista e a canalização massiva de capitais durante a Era dos Descobrimentos (séc. XV-XVII) também ajudaram a financiar e impulsionar o Renascimento e as suas mais monumentais obras e fortunas. Interrogava-se o filósofo Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), “se é difícil a um homem rico entrar no Reino dos Deus, então porque procuramos com avidez acumular riquezas?”[2] A resposta residia na nova psique burguesa onde o parecer suplantava o ser. A moda, a vaidade e o exibicionismo[3] floresciam nos salões reais e nas residências dos mais abastados tornando mais acentuadas que nunca as diferenças sociais entre a nobreza cortesã, a próspera nova classe e os modestos e pobres. A caixa de Pandora do capitalismo estava aberta, a palavra de ordem era “acumular”.

Os mecenas burgueses compreenderam que a ciência podia solucionar problemas práticos do quotidiano e dar resposta ás necessidades que o desenvolvimento dos meios de produção impunham. Se por um lado a ciência podia trazer proveitos económicos, a arte trazia prestígio e reconhecimento. A veia mecenática da burguesia iria estender-se também aos artistas que então saiam do anonimato e passavam a assinar as suas obras. Já não eram meros executantes da vontade divina e a arte deixava de ser um acessório decorativo da atividade religiosa, ganhando estatuto, sendo valorizada, mesclando-se também com a atividade dos artesãos. As cenas bíblicas e religiosas continuariam, contudo, a ser uma fonte de inspiração para muitas obras, muitas delas encomendadas também pelo clero.

Existem testemunhos do deslumbramento que experimentavam aqueles nostálgicos pioneiros da arqueologia como Ciríaco de Ancona (1391-1453), quando aos seus olhos se revelavam as maravilhas arquitetónicas e artísticas da antiguidade, durante séculos ocultas sob o solo ou entre os escombros de mais recentes ruínas. E que desilusão sentiriam, impotentes para resgatar na integra tais preciosidades e puder apreciá-las em toda a sua plenitude e esplendor. Onde estaria hoje a humanidade se os impérios clássicos não tivessem desaparecido?

 

Bibliografia

Diversos textos acessíveis na Plataforma de E-Learning da Universidade Aberta, na disciplina de História da Idade Moderna.

HELLER, Agnes – O Homem do Renascimento, Editorial Presença, Lisboa.

 



[1] O retorno ao classicismo foi igualmente uma das características do regime nazi liderado por Adolf Hitler (1889-1945), manifestando-se essencialmente nos domínios arquitetónico e artístico.

[2] Heller, Agnes – O Homem do Renascimento, Editorial Presença, Lisboa, pp.47

[3] Ficou célebre a comitiva enviada por D. Manuel ao papa Leão X em 1514, desfilando pelas ruas de Roma numa exibição de desmesurado luxo e sumptuosidade onde pontuavam diversos animais exóticos.