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Perdas e ganhos populacionais regionais: a atração do litoral

Jorge Branco[1]

Resumo

As diferenças observadas na densidade populacional das diferentes regiões portuguesas resultam de uma série de fatores naturais e humanos que se interrelacionam entre si, geradores de um círculo-vicioso que tem tido como consequência o êxodo rural das populações na direção das regiões litorais, fixando-se onde há emprego, emprego que, por seu turno, se fixa onde existe mão de obra.

 

Introdução

            Não obstante ser um país de reduzida dimensão, sendo esta umas das razões apontadas pelos críticos para obstar à sua regionalização político-administrativa, Portugal regista profundas assimetrias económicas e sociais entre as diversas regiões que o compõem, às quais também não são alheios contrastes ao nível da geografia física que se observam ao longo do seu território.

O litoral sempre atraiu as populações contribuindo para fenómenos de migração interna potenciada com a crescente terceirização da economia portuguesa registada principalmente a partir da década de 80 do século passado, constituindo as duas grandes áreas metropolitanas (AM) de Lisboa e do Porto os principais focos de atração de investimento e dos estratos mais dinâmicos da população.

            Apesar da densidade populacional do país ter globalmente decrescido no período compreendido entre 2009 e 2019, de 112,9 para 109,9 habitantes por km2, continuaram a verificar-se fluxos migratórios regionais que contribuíram para perpetuar o ciclo de desocupação humana das regiões interiores que se arrasta há décadas.

 

 

A atração do litoral

Menos sujeita à influência do clima mediterrânico, que afeta principalmente as regiões interiores, a faixa litoral, com o seu clima mais ameno e relevo menos acidentado, é uma parcela do território português privilegiada onde se encontra fixado a maior parte do tecido empresarial e consequentemente o emprego.

A apologia de um estilo de vida costeiro tem igualmente vindo a ganhar força. Viver na primeira linha de mar é cada vez mais um luxo não sendo por acaso que os principais empreendimentos e centros turísticos se encontram muito próximos e com uma estreita relação com o mar, pontuando o estar na praia quase como um elemento iconográfico ligado ao bem-estar físico e emocional.

A distribuição da população pelo litoral não é, contudo, homogênea. A região do Alentejo Litoral apresenta uma densidade populacional semelhante à verificada nas regiões interiores, pesando aqui fatores geomorfológicos que dificultaram a fixação de povoados e o acesso às atividades marítimas, sendo a região caracterizada por uma orla costeira alta e rochosa onde predominam as arribas.  

 

O papel do Estado e o triunfo da tecnocracia

Todas as atividades humanas tendem para um ajustamento baseado nas leis do mercado, lógica que vem sendo seguida e implementada nas mais diversas áreas, ajustando-se, por exemplo, a quantidade de médicos e hospitais ao maior número possível de doentes, tentando sempre atingir-se a maximização de recursos com o menor custo possível. Postos de correio, as agências bancárias ou até mesmo esquadras de polícia e tribunais[2], são fechados ou deslocalizados em consequência de atos de gestão que prosseguem uma ideologia tecnocrática, com decisões baseadas apenas em ratios e algoritmos que definem aquilo que é somente o minimamente adequado para responder às necessidades das populações. Contudo, benefícios económicos mais imediatos podem revelar-se desastrosos no longo prazo. Veja-se o exemplo das centrais de compras, um modelo centralizado de aquisição de bens consumíveis para os diversos serviços do Estado que, de facto, resulta em poupanças significativas baseadas nas aquisições em larga escala apenas a um único fornecedor. No entanto esta medida coloca em causa a subsistência das economias locais onde se encontram instalados aqueles organismos, sendo beneficiadas as empresas multinacionais ou grandes empresas que invariavelmente ganham os concursos de fornecimento e que centralizam as suas operações nos grandes centros urbanos.

 

Pessoas e empresas

Apesar do fenómeno atrativo do litoral, existe ainda assim um fosso enorme com aquilo que é a realidade das duas AM de Lisboa e do Porto[3] no que respeita quer ao número de habitantes quer ao número de grandes empresas (não financeiras) ali fixadas. Regra geral, conforme se pode verificar na fig. 2, estes dois indicadores encontra-se correlacionados, sendo no entanto observável uma evidente disrupção na AM de Lisboa, onde se acumulam 49,3% do número total de grandes empresas não financeiras existentes no país, para uma população correspondente a (apenas) 27,8% do total nacional. Outras regiões como a do Algarve e a do Tâmega e Sousa, pelo contrário, caracterizam-se pelo maior número de habitantes face a um menor número de grandes empresas.

 

Densidade populacional nas NUTS III

Em termos médios globais a densidade populacional em Portugal recuou 2,7% no período de dez anos compreendido entre 2009 e 2019, registando a AM de Lisboa um único e singular aumento entre todas as NUTS III, fixado nos 1,5%, vendo a sua densidade, já incomparavelmente superior face à larga maioria das regiões, aumentar de 899,6 para 946,8 habitantes por Km2. Por seu turno, no mesmo período registaram-se maiores diminuições na densidade populacional nas regiões que em 2009 já apresentavam as mais baixas taxas, sendo este facto sintomático duma transferência de populações quer para o litoral quer para países estrangeiros.

 

Considerações finais

As regiões interiores destacam-se pelo seu nível de qualidade de vida contrastante com o ritmo alucinante da vida urbana. Assiste-se a uma certa invasão de elementos caracteristicamente urbanos que começam a marcar presença nas regiões rurais, existindo zonas híbridas onde podem ocorrer também processos de descaracterização dos lugares… A otimização das infraestruturas, a maior oferta e qualidade das vias de comunicação e o alcance das telecomunicações aos pontos mais remotos do território, que contrariam o seu tradicional isolacionismo, parecem continuar, contudo, a não atrair as massas.

Mas há cada vez mais desencantados[4] com a vida urbana que passaram a prezar a pacatez dos campos, as suas tradições e os seus valores humanos, patrimoniais, gastronómicos e paisagísticos, podendo perspetivar-se uma mudança do atual paradigma para a qual as políticas de incentivo e de reforço da coesão territorial por parte do Estado terão necessariamente de ser convocadas.

 

 

Referências

Diversos artigos disponibilizados na área de e-learning da cadeira de Geografia Humana de Portugal da Universidade Aberta.

Dados estatísticos analisados e importados a partir do site da Pordata, acessível em https://www.pordata.pt/.



[1] Aluno do curso de História da Universidade Aberta.

[2] Na reforma judiciária de 2014 encerraram 20 tribunais, maioritariamente das regiões interiores. In https://www.historico.portugal.gov.pt/pt/o-governo/arquivo-historico/governos-constitucionais/gc20/os-temas/reforma-judiciaria/novo-mapa-judiciario.aspx

[3] No endereço https://pudding.cool/2018/10/city_3d/ temos acesso a uma perspetiva espacial e tridimensional da densidade populacional de todo o planeta, permitindo-nos visualizar a distribuição da população portuguesa pelo território duma forma original e inovadora.

[4] Surgiu mesmo o termo urbano-depressivo para classificar que ou quem revela traços depressivos característicos ou decorrentes de ambientes urbanos. in Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2021. [consult. 2021-05-22 14:22:26]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/urbano-depressivo.

As Estruturas do Emprego em Portugal

A “fábrica” como símbolo do progresso e da revolução industrial, não foi uma característica da paisagem portuguesa até à década de 60 do século XX, quando o país viu finalmente nascer um grande projeto siderúrgico construído de raiz com capitais públicos, assistindo-se a um esforço de modernização económica por parte do Estado Novo, assente num modelo que haveria de fazer escola, baseado em baixos salários e recursos humanos pouco qualificados.

Historicamente Portugal sempre esteve limitado nas suas ambições pela sua reduzida dimensão e escassa população, destacando-se Lisboa que “(…) é Portugal! Fora de Lisboa não há nada! O País está todo entre a Arcada e São Bento.” »[1]. Não obstante atualmente ser (apenas) a 92ª cidade com maior número de habitantes da Europa[2], o centralismo de Lisboa[3] manifesta-se pela elevada concentração de entidades privadas, organismos do Estado, infraestruturas, oferta cultural e de serviços ímpar no país. Inúmeras outras cidades de média dimensão tem constituído também, numa escala regional, importantes polos de atração das populações e de desenvolvimento de um país que nas últimas décadas perdeu definitivamente o seu cunho caracteristicamente rural, comprovando-se que as cidades continuam, desde há séculos, a ser um símbolo acabado de civilização, onde está o emprego e se alcança uma prosperidade material que os meios rurais e as atividades primárias a eles ligadas, estão longe de proporcionar.

Em 1974 a população portuguesa empregada dividia-se entre os três principais setores de atividade[4], observando-se desde então um ininterrupto crescimento do emprego no sector terciário e um recuo nos restantes setores. A entrada de Portugal na União Europeia (UE) em 1986 (então CEE), terá sido decisiva para impulsionar esta tendência, com a canalização de fundos de coesão maioritariamente para o setor terciário, nomeadamente no desenvolvimento em vias de comunicação. Por outro lado, os setores primário e secundário foram alvo de cotas na produção de produtos já excedentários na EU. Muitos pequenos empresários, agricultores e pescadores, foram então subsidiados precisamente para não produzir, não fazerem as suas culturas, deixarem as suas traineiras em terra ou até mesmo as desmantelar.

 Se em 1974 o setor primário absorvia 32% do emprego, atualmente representa apenas 5%. Já o sector secundário teve um aumento que só se inverteria durante a primeira década do novo milénio. As continuas otimizações de processos de produção e as inovações tecnológicas, nomeadamente na indústria, ao nível da robótica, e na agricultura, ao nível da manipulação genética de plantas e sementes, têm permitido aumentos de produtividade, libertando recursos humanos para o setor terciário. Ainda assim a produtividade média do trabalhador português representa apenas 55% daquilo que produz um trabalhador da UE.

O salário mínimo tem vindo a ser alvo de aumentos graduais que por norma refletem coerentemente a evolução observada na produtividade, representando, contudo, o salário médio praticado em Portugal apenas 73% da média praticada nos países da UE.

Se Portugal perdeu o comboio das três primeiras revoluções industriais, parece apostado em acompanhar a revolução digital em curso. Em 2019 por cada 1000 habitantes existiam 385 acessos à internet, valor superior à média da UE, fixada nos 354 acessos. Aparentemente os portugueses demonstram bastante recetividade à inclusão da tecnologia nas suas vidas e negócios, sendo pioneiros em inovações tecnológicas como o Multibanco ou a Via Verde. Contudo, as taxas de acesso à internet podem tão somente traduzir uma maior quantidade de consumidores passivos de conteúdos digitais maioritariamente disponibilizados pelas redes sociais. O investimento público em I&D resume-se a apenas 0,07% do PIB, dos mais baixos da EU, apenas à frente do efetuado pela Estónia e a Roménia.

Não obstante existirem importantes polos industriais no país, a industrialização intensiva que se verificou noutros países nunca ocorreu em Portugal em semelhante escala. O país, por exemplo, nunca teve uma central nuclear, infraestrutura banalizada na generalidade dos principais países europeus. No sector energético, apostou nos recursos hídricos estando atualmente na vanguarda das energias renováveis, fatores que terão contribuído para manter um certo ambiente bucólico e o estado virgem do território, livre por exemplo de fenómenos de sobrepopulação, de descaracterização e de poluição que afetam outros países. Talvez também por isso o setor do turismo tenha tido nos anos mais recentes um forte impulso, sendo responsável por grande parte da riqueza produzida no país[5] e consequentemente absorvendo parte da população empregada. O turismo tem vindo a permitir o resgate de parte de um Portugal esquecido, de aldeias inteiras abandonadas que são recuperadas, ruínas restauradas em regiões mais inóspitas, mas ricas em beleza e tranquilidade, contribuindo para a criação de emprego e até para a coesão territorial.

A comparação com aquilo que tem sido a evolução do emprego na hotelaria na UE e em Portugal pode ser observada no gráfico nº 3, sendo notório o forte incremento que se vinha verificando desde 2015, evoluindo positivamente em Portugal duma forma mais expressiva que no resto da Europa.

 

A formação académica dos empregados em Portugal apresenta igualmente uma evolução positiva, sendo crescente o número de empregados com formação superior, observando-se, contudo entre 2001 e 2013, uma contínua diminuição da percentagem de indivíduos com formação superior empregados. Existiu então um excesso de licenciados face às necessidades do mercado de trabalho. Em 2013 apenas 70% de indivíduos com formação superior se encontravam empregados, num período em que não era invulgar existirem licenciados a desempenhar tarefas sem qualificação especial, como caixas de supermercado. Nos anos posteriores assistiu-se a uma recuperação nas taxas de empregabilidade, verificando-se em 2019 uma taxa de 79,2%.

Além duma maior exigência e competitividade no setor privado, concorrendo as empresas entre si para a contratação de melhores e mais qualificados colaboradores, no sector do Estado tem-se igualmente assistido a uma valorização de diversas carreiras profissionais, vedando o acesso às mesmas apenas a licenciados quando até há pouco tempo se encontravam acessíveis com o 12º ano de escolaridade.

Não obstante os diversos indicadores que caracterizam o emprego em Portugal apresentarem uma evolução globalmente positiva, pecamos por vezes por não evoluir ao mesmo ritmo de outros países que, em circunstâncias semelhantes, conseguiram aproveitar a oportunidade que constituiu o seu ingresso na UE com quem convergimos, mas de forma lenta. Exemplo de convergência, mas com aquilo que seria o natural e que traduz o protagonismo crescente e devido das mulheres numa sociedade moderna, é precisamente a incidência do emprego feminino que evolui de 39,7% em 1974 para uns atuais 49,3%, praticamente em paridade com o emprego masculino. No entanto, subsiste uma injustificável disparidade com o salário masculino, representando o salário feminino médio somente 86% do masculino. Uma assimetria que lentamente tem vindo a perder expressão se considerarmos que em 1985 este indicador se fixava nos 78%.

 

Bibliografia

Textos acessíveis na Plataforma de E-Learning da Universidade Aberta na unidade curricular de Geografia Humana de Portugal.

Os dados utilizados neste trabalho foram na sua quase totalidade extraídos do site Pordata (https://www.pordata.pt/) da Fundação Manuel dos Santos que utiliza informação disponibilizada pelo INE.

 



[1] “Os Maias”, de Eça de Queirós, cap. IV. Este diálogo terá dado origem à expressão “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”.

[2] In Demographia – World Urban Areas  -16th Annual Edition (http://www.demographia.com/db-worldua.pdf)

[3] No malogrado governo de Santana Lopes (mandato entre 17 de julho de 2004 e 12 de março de 2005), uma das ideias, logo polémica, do então primeiro ministro, visando contrariar o excesso de concentração de organismos do Estado em Lisboa era precisamente descentralizar ministérios, transferindo-os para cidades do interior.

[4] Em 1974 o setor primário ocupava 1290,5 milhares de empregados, o secundário 1246 milhares e o terciário 1159 milhares.

[5]O setor do turismo é a maior atividade económica exportadora do país, sendo, em 2019, responsável por 52,3% das exportações de serviços e por 19,7% das exportações totais. As receitas turísticas registaram um contributo de 8,7% para o PIB nacional.” in http://www.turismodeportugal.pt/

A Floresta e a Deflorestação em Portugal

A floresta é, a par com os oceanos, um importante sistema purificador terrestre, desempenhando um papel fundamental no equilíbrio químico da atmosfera, pela capacidade que possui de absorver e reter carbono, um dos constituintes do dióxido de carbono (CO2), gás de efeito de estufa gerado pela respiração e decomposição de todos os seres e organismos vivos e por inúmeras atividades humanas ou fenómenos naturais, como as erupções vulcânicas. As atividades humanas constituem mesmo a principal causa do aumento da concentração de CO2 na atmosfera, que se estima ter tido um incremento de 25% desde o início da era industrial, sendo o uso generalizado de combustíveis fósseis uma das causas principais para este aumento, a que se juntam outras causas diretamente provocadas pelo homem, como as mudanças no uso dos solos ou a criação intensiva de gado[1] a um ritmo galopante que acompanha, também um aumento exponencial da população mundial[2] verificada desde o início do século XX.

Os gases de efeito de estufa são benéficos para o planeta, impedindo ou dificultando que escapem para o espaço as radiações de grande comprimento de onda, criando assim condições para a manutenção da temperatura da Terra dentro de limites que permitem a vida. Este é um fenómeno natural sem o qual se estima que a temperatura média do planeta, que ronda os 15o C, seria de -19o C, um valor que, por força do desenvolvimento tecnológico, provavelmente não impossibilitaria a existência futura da vida humana, mas seguramente a tornaria residual, tornando igualmente impossível a vida para a grande maioria das restantes espécies.

Contudo, por força quer dos incêndios, quer do ritmo acelerado da desflorestação deliberada com fins comerciais ou industriais, com a redução da área florestal fica limitada a função de sequestro do carbono, comprometendo assim a sua capacidade reguladora da quantidade de CO2 libertado para a atmosfera. O excesso deste gás provoca um consequente aumento nos níveis de retenção das acima mencionadas radiações infravermelhas e, logo, ocorrendo um aumento da temperatura terrestre. Este aquecimento, além de ter inúmeras repercussões sobre os ecossistemas e potencializar alterações e fenómenos climatéricos extremos, provoca o derretimento das calotes polares e dos gelos presentes nas altas montanhas, sendo canalizado para os oceanos um tal fluxo de água que provoca a sua expansão térmica e um aumento do nível do mar[3].

Em Portugal os efeitos da erosão marinha, resultante do aumento do nível do mar (também pelo défice de sedimentos trazidos pelos cursos de água) fazem-se sentir principalmente nas áreas litorais arenosas existindo projeções que apontam para o desaparecimento de várias áreas costeiras, algumas urbanizadas, que ficarão submersas pelo Atlântico[4]. Outros fenómenos como a contaminação dos aquíferos com água salgada ou a salinização dos solos, que atualmente em Portugal não se podem considerar (ainda) problemáticos, poderão comprometer o abastecimento de água potável tornando-a imprópria para rega e tornar estéreis os campos agrícolas junto às zonas litorais.

A importância das florestas estende-se também à conservação da biodiversidade, criando condições climáticas e ambientais específicas, favoráveis á existência de diversos tipos de fauna e flora. Também os solos beneficiam da proteção da floresta contra a erosão provocada pelas chuvas, nomeadamente ao nível dos declives, ajudando as raízes das árvores a fixação e imobilidade dos solos, contribuindo ainda para a integridade dos sistemas fluviais. Do ponto de vista económico a floresta é também uma importante fonte de matérias primas utilizadas pela indústria.

Em Portugal o pinhal bravo, eucaliptal e o montado de sobro correspondem a cerca de 85% de uma floresta recente[5] e muito marcada pela intervenção humana[6], ocupando entre 36% a 39%[7] do território nacional. A sua capacidade de sequestro de carbono é considerada bastante elevada. No entanto a desflorestação provocada pelos fogos[8], o aparecimento de novas doenças e pragas das árvores, o corte precoce juntamente com a eventual redução de processos de reflorestação por não serem financeiramente rentáveis em detrimento, por exemplo, da ocupação dos solos em larga escala com painéis de captação de energia solar, poderão reduzir significativamente a capacidade de sequestro de carbono da floresta nacional.

Não obstante ter sido historicamente determinante na expansão demográfica e ser atualmente essencial para satisfazer as necessidades de alimentação das populações, a perda de superfície florestal para os terrenos agrícolas pode a longo prazo revelar-se desastrosa e impulsionar processos de expansão de terrenos incultos e de desertificação como acontece no Alentejo onde em solos já de si pouco férteis, praticam-se culturas intensivas e de crescimento e colheita rápida, tornando-os gradualmente ainda mais inférteis até um ponto de se tornarem economicamente inviáveis.

As motivações que atualmente predominam relativamente à gestão da floresta revestem-se de um carácter muito mais economicista que propriamente ecológico, estando condicionadas à procura de bens e serviços daquela provenientes, sendo significativo que cerca de 85% da área florestal esteja na posse de particulares, portanto muito mais focados para a rentabilização e para o lucro, permeáveis a projetos de curto prazo mais distantes de uma consciência social e ecológica.

As alterações no equilíbrio químico da atmosfera têm um alcance e impacto global em todo o planeta sendo suscetíveis de exacerbarem conflitos entre países, originar migrações de populações humanas e animais ou desaparecimento de espécies, colocando pressão sobre os ecossistemas verificando-se um continuo recuo da área florestal pese embora a um ritmo, felizmente, mais lento[9] na última década face às décadas anteriores.

 

 

Bibliografia

Diversos textos disponibilizados na área de e-learning da disciplina de Geografia Física e Ambiente.

KULP, S.A., Strauss, B.H. New elevation data triple estimates of global vulnerability to sea-level rise and coastal flooding. Nat Commun 10, 4844 (2019) – Disponível online em https://doi.org/10.1038/s41467-019-12808-z

PEREIRA, João Santos Pereira; CORREIA, Alexandra; CORREIA, Alexandre; BORGES, José G.; PEREIRA, João – A Floresta - Disponível online em https://www.researchgate.net/publication/240614136



[1] O metano expelido por estes animais é também um gás de efeito de estufa.

[2] A população mundial de seres humanos ascende atualmente a 7,8 biliões, prevendo-se que atinja os 9,7 em 2050. No princípio do século XX a população mundial fixava-se (apenas) nos 1,6 biliões. (https://www.worldometers.info/world-population/#pastfuture).

[3] Durante o século XX o aumento registado no nível do mar cifrou-se entre os 11-16cm, estimando-se que no final do presente século registe um aumento de cerca de meio metro.

[4] Estima-se que o aumento previsto de 30 centímetros no nível do mar até 2050 irá afetar mais de 100 mil portugueses. Fonte: Estudo coordenado por Carlos Antunes, professor de Engenharia Geoespacial da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

[5] Em 1870 a área florestal ocupava entre 4% a 7% do território nacional.

[6] As florestas originais praticamente inexistem na Europa, representando em Portugal apenas 0,76% do total da área florestal.

[7] Valor varia de acordo com os indicadores metodologia de análise. Fonte: Carta de Uso e Ocupação do Solo de Portugal Continental 2018 (COS2018), Direção-Geral do Território e Relatório Completo do 6.º Inventário Florestal Nacional (20­­19) ICNF, in https://florestas.pt/

[8] O ano de 2003 foi o pior de sempre em área ardida, tendo atingido 8,5% da superfície arborizada.

[9] A redução média anual cifrou-se em 7,8 milhões de hectares durante a década de 1990, 5,2 milhões na primeira década do século XXI e 4,7 milhões anuais entre a partir de 2010. Fonte: https://florestas.pt/

Ambiente e Geografia Física

 Cerca de 9 biliões de anos depois do evento que deu origem ao universo, um planeta estabilizava-se na orbita de um sol situado na via láctea, a uma distância precisa que se viria a revelar ideal para o surgimento de um ambiente propicio à vida. Seria, contudo, necessário decorrerem ainda cerca de meio bilião de anos para que, por circunstâncias que se presumem relacionadas com reações químicas, surgissem os primeiros organismos unicelulares naquele terceiro planeta mais próximo do sol. Só muito milhões de anos depois surgiriam os organismos multicelulares, prosseguindo assim a vida na Terra numa imparável continuidade evolutiva que Charles Darwin tão bem explicou na sua obra de 1859, “A Evolução das Espécies”.

As condições ambientais que hoje o planeta Terra possui, que o caracterizam como um planeta singular e fervilhante de vida, foram, portanto, o resultado de biliões de anos de um trabalho em constante progresso que resulta da interação recíproca entre múltiplos elementos e fenómenos naturais, como o clima, o relevo, a geologia ou a hidrografia, e também espaciais, como a meteorização. Um logo trabalho de terraformação ao qual o Homem foi até certa altura completamente alheio, ainda que não resistisse a reivindicar tal tarefa como sendo obra de deuses, muitos deles, obviamente à sua imagem.

No calendário cósmico, popularizado pelo cientista Carl Sagan, a história da aventura humana no planeta ocupa uns escassos segundos do último dia do ano. A sobrevivência e a ascensão da espécie dominante, tal como aconteceu com outros animais, dependeu da sua capacidade de adaptação a várias circunstâncias naturais que também a moldaram física e psicologicamente.

Desde cedo o homem se destacou pela sua capacidade de não só se adaptar como também de se apropriar e moldar o meio físico onde estava inserido, viciando assim os dados de um jogo até então regido apenas por leis naturais ou fatores aparentemente aleatórios que de modo algum podia influenciar. O sucesso das grandes civilizações dependeu dessa aptidão, dessa capacidade de interferir no geossistema. Veja-se a título de exemplo a civilização Egípcia que prosperou precisamente pela capacidade de “domar” o rio Nilo, alterando o seu curso ou controlando os seus períodos de cheias, manifestamente provocando um impacto não só em termos paisagísticos, mas também com repercussões ao nível climático da região.

A geografia física, como disciplina que busca por explicações e correlações entre as causas e os efeitos dos diversos fenómenos naturais, ocupou um legar de destaque entre as demais disciplinas científicas e sociais aquando do estabelecimento dos impérios, quando as nações tiveram necessidade de conhecer com maior profundidade os seus domínios territoriais. Atualmente tem, no espectro científico, especial relevância atento o seu objeto de estudo centrado nos fenómenos físicos e biofísicos, quando assistimos a múltiplas manifestações do poder e engenho humanos de interferir de uma forma (quase sempre) negativa nas condições ambientais do planeta. Mais do que nunca, existe a necessidade monitorizar e contabilizar o alcance da ingerência humana na “saúde” do planeta, encontrando respostas e antecipando cenários, contrariando a desarmonia crescente entre o homem e a natureza, em prol de um desenvolvimento sustentável que satisfaça as necessidades atuais sem comprometer a existência das gerações futuras.

A degradação ambiental do planeta tem sido cada vez mais visível desde a revolução industrial, prevendo-se uma radicalização da amplitude de certos fenómenos naturais que, pela sua singularidade, os cientistas identificam como sendo inequivocamente resultado da ação humana e dos desequilibro que a sua atividade provoca, podendo indiciar a incapacidade do planeta se regenerar e entrar num processo degenerativo.

Existem quatro domínios do estudo da geografia física que estão intimamente relacionadas com as questões ambientais que, no atual contexto de consciencialização ecológica merecem destaque. Note-se que o galopante avanço no conhecimento cientifico verificado nos últimos anos, nomeadamente das condições ambientais de outros planetas do sistema solar, onde se destaca Marte como destino próximo da humanidade, por serem tão inóspitas e adversas à vida, poderão estar a contribuir para essa consciencialização, para a importância de preservação do “paraíso” terrestre.

A climatologia é um desses domínios que estuda especificamente as alterações das condições atmosféricas numa ótica de médio e longo prazo, sendo certo que os fenómenos climáticos que ocorrem na atmosfera terreste, como a temperatura, a radiação solar, o vento ou a precipitação, têm um impacto decisivo e condicionante da atividade humana. Crê-se que a produção e libertação de gases poluentes para a atmosfera possam estar a comprometer a camada de ozono do planeta que funciona como um importante filtro da radiação ultravioleta emitida pelo sol, altamente nociva para os seres vivos.

As condições climatéricas estão por seu turno também relacionadas com a geomorfologia, verificando-se coincidências entre diferentes tipos de clima consoante o tipo de relevo que, no planeta, encontra-se em constante mais ou menos visível mutação, quer por força de fatores exógenos, nomeadamente por ação dos elementos naturais como o vento ou a chuva, quer por fatores endógenos, como sejam a atividade vulcânica ou tectónica. O impacto da atividade humana ao nível geomorfológico faz-se também sentir principalmente por força da urbanização de espaços, da exploração agrícola dos solos e pela mineralização ou extração de recursos naturais do subsolo.

Os dois domínios já referidos interagem diretamente com um terceiro domínio de estudo da geografia física, a biogeografia, que estuda a repartição espacial dos seres vivos pelo planeta cuja maior quantidade de espécies se concentra na faixa equatorial, onde as variações climáticas são menores. Problemas diretamente causados pela atividade humana como a desflorestação, e indiretamente como as alterações climáticas e o aumento das temperaturas, podem provocar mudanças profundas nos ecossistemas, levando a migrações de espécies e até ao seu desaparecimento.

Ocupando mais de dois terços da superfície terreste, a água, elemento essencial à vida, constitui o objeto de estudo da hidrogeografia. O aumento exponencial do número de seres humanos no planeta traduz-se num consequente aumento de consumo de recursos naturais, entre os quais a água, um recurso finito e que já foi apontado como uma das grandes fontes de conflito entre as nações num futuro próximo. As reduções ou extinção de glaciares e das calotes polares estão a provocar um aumento gradual do nível do mar, prevendo-se num futuro não muito longínquo a inundação permanente de diversas zonas costeira atualmente com uma grande densidade populacional.

Vista do espaço, a atividade humana e os seus efeitos sobre o planeta tendem a assemelhar-se à atividade de um qualquer vírus parasita que se multiplica imparável num organismo vivo, corrompendo e ocupando cada vez mais tecido vital. Importa contrariar esta visão quase grotesca e a ideia de que o homem pode destruir em segundos do calendário cósmico o que demorou biliões de anos a construir, cabendo à geografia física um papel muito importante na preservação da natureza, do ambiente, da beleza e da cor azul que caracteriza o planeta Terra.

 

 

Bibliografia

Diversos textos de apoio acessíveis na Plataforma de E-Learning da Universidade Aberta, na disciplina de Geografia Física e Ambiente.

MONTEIRO, Rafaela Martins, GRANGEIRO, Cláudia Maria Magalhães – A Geografia e os Estudos Ambientais, Revista da Casa da Geografia de Sobral, Sobral/CE, v. 17, n. 3, p. 5-20, Dez. 2015. Disponível na internet em http://uvanet.br/rcgs.

A Alfabetização em Portugal

No contexto Europeu, Portugal sempre se situou numa periferia não só geográfica, mas também política e ideológica, encontrando-se comummente à margem das grandes convulsões e acontecimentos históricos, longe do epicentro das grandes revoluções sociais e do pensamento que moldaram o continente e o mundo. As ondas de choque provocadas pela mudança sempre demoraram a chegar até nós.

O período dos Descobrimentos constituirá o único da história onde a península ibérica assumiu especial protagonismo na condução do destino de vários povos, ainda que o verdadeiro centro e principal trono do mundo continuasse instalado em Roma, a quem o país ordeiramente jurava obediência, nunca alcançando o poderio de outros que, no longo prazo, seriam os grandes beneficiários e colheriam os frutos da nossa ousadia e aventureirismo.

Fiel na sua vassalagem à igreja de Roma, Portugal não seria, portanto, bafejado pelas virtudes da Reforma protestante, apontada como uma das principais causas da alfabetização dos crentes europeus apostados numa experiência mais intimista com a religião, em compreender e fazer uma interpretação pessoal da bíblia na sua própria língua. Nem acompanharia o desenvolvimento científico e económico que se verificava nos países da Europa Central e do Norte, com a respetiva urbanização e crescente sofisticação da sociedade que obrigava à literacia dos cidadãos.

Portugal não beneficiaria assim das sinergias resultantes das disrupções religiosas e económicas que ocorreram na Europa nos séculos XVI e seguintes, sendo a alfabetização e a escolarização bons exemplos duma mudança de paradigma que, a uma velocidade completamente diferente da imprimida noutros países europeus, muito lentamente foi progredindo num país profundamente rural e apático, para quem as letras estavam apenas reservadas a uma franja mais intelectual e elitista da sociedade, tendo tardiamente o Estado assumido plenamente o ensino como como prioridade já há muito definida por outras sociedades europeias.

Não obstante a introdução da escolaridade obrigatória em 1844, a Lei demorou bastante tempo a sair do papel e, no dealbar do século XX, de acordo com informação censitária, apenas 1 em cada 4 portugueses com mais de sete anos era alfabeto, representado um número diametralmente oposto ao verificado em países como a Alemanha, Holanda ou Suíça onde a taxa de alfabetização já alcançava os 98% da população.

Apesar do ímpeto reformista da 1ª República, a evolução verificada até à instauração do Estado Novo não seria significativa, saldando-se, em 20 anos, num modesto acréscimo de 8% na taxa de alfabetização, revelador não só da inércia do Estado como das próprias famílias. Até meados do século XX a aprendizagem escolar não resulta de uma imposição ou obrigação efetiva do Estado, inexistindo um sistema de ensino estruturado e abrangente. Só a força de vontade ou ambição pessoal, a decisão da família ou necessidades pontuais para o exercício de certas profissões quando diplomas escolares são obrigatórios, levam os portugueses à escola.

A escola era um luxo e o conhecimento, além daquele que é provido pela sabedoria popular e familiar, está longe de ser visto como um investimento e pouca falta faz à vida do campo. Para as comunidades rurais, que constituem o grosso do tecido social, a escola, geralmente distante dos pequenos povoados dispersos pela província, constitui um sacrifício demasiado grande para o proveito que objetivamente dele se tira. São braços que ficam ocupados demasiado tempo quando tanta falta fazem ao sustento das famílias, ao trabalho agrícola e à pecuária.

Dá-se prioridade ao saber ler, aprendizagem que por vezes é feita de forma informal, relegando-se frequentemente o saber escrever. Os elementos do sexo masculino são os mais alfabetizados porque mais ligados à realidade urbana, permanecendo as mulheres presas ao serviço doméstico que se mescla com o duro trabalho agrícola, ou não fosse essa a ordem natural defendida pela ideologia do regime autoritário que governava o país, que considerava o lar o lugar da mulher. As meninas não necessitariam assim de outra formação que não a transmitida pelas mães e avós, para que, tal como elas, viessem a tornar-se boas donas de casa e perpetuassem a cultura camponesa.

Só a partir da década de 50 a escola começa a tornar-se um hábito natural, assistindo-se a uma escolarização massiva dos jovens. Entre as duas décadas que medeiam os anos 40, quando se dá início a um plano de construção de escolas primárias, e os anos 60, o número de crianças entre os 7 e 9 anos que sabem ler mais que duplica atingindo-se uma alfabetização de 97% e de 95% de frequência escolar, neste escalão etário. Neste aspeto será de realçar o papel reformador que coube ao Estado Novo, tantas vezes responsabilizado pelo atraso estrutural e cultural do país.

No espaço de duas gerações a infância passou a ser vivida de forma distinta, com a escola e o lazer a conquistarem terreno face ao tempo que era consumido pelas crianças com trabalho produtivo doméstico e rural. Se antes só à noite havia tempo para se fazerem os trabalhos de casa e sem qualquer tipo de apoio, na geração mais recente são realizados à tarde e com o apoio de irmãos mais velhos ou dos pais. Embora estas crianças continuem a participar em inúmeras atividades produtivas e a contribuírem com a sua parte para a economia doméstica, fazem-no sem ser de forma sistemática, sem a dureza e a exigência de antigamente. No seu dia-a-dia, as crianças da geração mais recente beneficiam de toda uma série de benesses proporcionadas pela sociedade contemporânea que muito contribuem para visíveis diferenças ao nível da qualidade de vida. A imagem da criança que, descalça, percorria sozinha longas distâncias por caminhos de cabras e sujeita às intempéries para frequentar uma escola lúgubre e austera onde se cultivavam as doutrinas da igreja e do Estado, seria agora totalmente anacrónica. A experiência da escola mudou radicalmente, tornando-se espaços acolhedores e laicos, com os alunos a usufruírem de transporte disponibilizado pelos poderes locais.

A apatia dos país de antigamente, que resignados não viam que a escola pudesse mudar um destino que parecia inevitável para o filhos, não muito diferente do seu, é agora substituída pela consciencialização de que o ensino e as habilitações académicas podem ser um importante fator de mobilidade social, permitindo aos filhos ascender a um estilo de vida e patamar social superior ao que tiveram, constituindo mesmo um motivo de orgulho e objetivo de vida de muitos pais terem um filho “doutor” (licenciado).

 

Bibliografia

CANDEIAS, António; SIMÕES, Eduarda - Alfabetização e escola em Portugal no século XX: Censos Nacionais e estudos de caso, Análise Psicológica (1999), 1 (XVII): 163-194, disponível na área de e-learning da UAB.